domingo, 6 de outubro de 2013

Na Estrada




















Cismei de conhecer o Rossini Tavares de Lima em São Paulo e fui ao Museu do Folclore, no Ibirapuera. Era um acervo incrível cujo trabalho de manutenção era minucioso. Levei comigo cópia da monografia premiada para mostrar a ele. Foi uma conversa descontraída. Ele sugeriu que eu deixasse a monografia para ser publicada através do Museu. Com o Prêmio Silvio Romero ela seria publicada pela Fundação Nacional de Arte, não havendo necessidade. Ele então me informou que havia atraso nas publicações das obras, e que corria o risco do meu trabalho não ser publicado.


Tive uma sensação de desapontamento, mas achei por bem trazer a monografia de volta comigo. Fiz então uma cartinha endereçada ao setor do concurso indagando sobre as publicações. Sem muita demora obtive retorno do Sr. Bráulio do Nascimento e mais adiante recebo os ofícios com as datas de lançamento em Atibaia, São Paulo e no Rio de Janeiro juntamente com outras obras.


Quando o livro ficou pronto, fui ao Rio para um contato no Museu do Folclore Edson Carneiro. Ao receber o primeiro exemplar impresso senti algo indescritível. Ter um livro publicado naquela época tem uma dimensão diferente dos dias de hoje. Atualmente, com as novas tecnologias, tudo se tornou mais fácil, com custos bem menores do que antes. De volta, com o livro na mão, entrei no metrô, que era o primeiro trecho construído no Rio. Na estação final, todos deveriam descer, e eu, totalmente absorta olhando o livro, quando ouvi o sinal do trem para fechar a porta. Vi as pessoas do lado de fora olhando para mim com ar de interrogação. Saí rapidamente.

A foto das congadas de Atibaia foi escolhida para o cartaz do lançamento, que aconteceu no Palácio do Catete.
No prédio da FUNARTE, estava acontecendo uma exposição das engenhocas do Mestre Molina. Fiquei encantada! Desejava um dia trazê-la para Atibaia. Deixei esta “carta na manga”, e foi mais um sonho que consegui realizar quinze anos depois, através do SESC-Pompéia, levando ao Museu de Atibaia cerca de oito mil estudantes para visitação. O lançamento do livro Ternos de Congos – Atibaia 1978,  foi organizado durante 1981, em Atibaia. Fiz um contato com a Comissão de Folclore da Secretaria de Cultura de São Paulo e recebi a sugestão de realizar um curso sobre Folclore na cidade, com a professora Maria Luiza Figueira de Melo. A idéia foi bem recebida pelo Diretor de Educação, na época, o Sr. Orlando Gigliotti. O curso aconteceu e reuniu vários professores e interessados. Lembro bem que fui fazer uma divulgação num ensaio de teatro, que acontecia no Cine Itá, com o Oswaldo Barreto. Era um grupo grande de jovens envolvidos na peça. Arrastei alguns daqueles jovens para participarem da iniciativa do curso, dentre eles, Edson Gonçalves, o Beleza, Marcio Zago, Beto Trícoli, José Roberto Pinto, Dilara Rúbia, entre outros.  A partir do curso iniciamos pesquisas de campo, e formei um grupo que intitulei Grupo Tipe – Pesquisa e Registro de Folclore. Escolhi este nome, inspirada nos cantos das rezas de São Gonçalo, em que os “tipeiros” entoam uma nota mais aguda findando os versos. Tipe vem de tiple (instrumento de sopro de sonoridade aguda; soprano).
Com o grupo formado a partir do curso, recolhemos um vasto acervo com cerca de duzentas  peças da cultura popular, como artesanatos, utilitários domiciliares, indumentárias, objetos ritualísticos e da  lúdica infantil.
Foi pesquisada toda a região desde Nazaré Paulista, Joanópolis, Piracaia, Bom Jesus dos Perdões, Jarinu, Bragança Paulista, além de diversos bairros de Atibaia como Alvinópolis, Jardim Imperial, Boa Vista, Caetetuba, Vila Rica, Vila Neto, Marmeleiro e outros.
Quem deu o título à exposição foi o Euclides Sandoval, que na época também produziu o convite e o cartaz do evento de lançamento do livro.  A exposição Veja Ouça Perceba – Folclore foi bastante elogiada pelo presidente da Comissão Nacional de Folclore, Bráulio do Nascimento, que sugeriu que o acervo fosse incorporado ao acervo de folclore existente no Museu. Algumas peças ficaram lá, mas a maior parte foi devolvida aos seus donos, e algumas ficaram com os participantes do grupo de pesquisa. Uma pessoa especial neste tempo, foi a Cristina Silveira Gonçalves, diretora do Museu, que se envolveu de corpo e alma na empreitada, incentivando o trabalho de todos. Para montar a exposição, entramos noite adentro, ficando lá até muito tarde. Naquele tempo, não havia necessidade de alarmes e sistemas de segurança. Nós ainda nos assegurávamos à educação e aos valores éticos. Terminamos a montagem, fechamos o museu e entregamos a chave aos responsáveis no dia seguinte. Tudo sob a mais perfeita ordem. Ainda existiam relações de confiança entre as pessoas. Situações como esta, hoje, seriam impossíveis.

sábado, 14 de setembro de 2013

Continuando – 2

Nascer é para viver.


Congada Branca  da Chácara Regina - 1979 / 80.
Em frente à residência onde morava, na rua Padre Chico.

Voltando de João Pessoa, estava de cara com a gravidez avançando. Com o recurso do prêmio, cuidei de resolver: médico, exames pré-natal, enxoval. Lembrei que São Benedito carrega o Menino nos braços. No final do ano convidei todas as congadas para irem lanchar na minha casa. Cada dia de festa recebia uma congada. Minha casa era na rua Padre Chico próximo ao Externato São José. Dava tempo direitinho da congada ir lá tomar lanche e voltar para missa e procissão. A Congada Branca também foi. No dia de ano novo, estava na casa de meus pais quando entrei em trabalho de parto. A coisa a evoluiu rápida, de modo que em poucas horas já estava com dores de expulsão num hospital de Bragança Paulista. Minha mãe estava junto. O médico veio e ela intercedeu dizendo: ela já esta com dores de expulsão. O médico virou e disse; como é que a senhora sabe que ela esta com dor de expulsão? E minha mãe respondeu: Porque eu tive doze. Durante 1979 e a filhinha Kátia  já com 8 meses, fui convidada a fazer uma palestra na Câmara Municipal de Atibaia. Quem foi me fazer o convite foi a Lenita Ferreira. O Sandoval, amigo do peito, emprestou um projetor de slides, o equipamento  “de ponta” da época. Na palestra projetei os slides comentando a Festa de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito.

Fotos: Acervo do meu irmão
Cláudio Monteiro da Costa
Me lembro bem de falar da importância de se salvaguardar os espaços de representação do sagrado, considerando os aspectos relativos ao movimento e à performance de forma geral. Comecei a perceber que minha atuação se desdobrava em duas frentes: a primeira, voltada diretamente para as congadas envolvendo-me com as comunidades e ao que realmente interessava; e a segunda, para aqueles que olhavam essas manifestações de outros  pontos de vista, como a comunidade da Igreja da Paróquia de São João Batista, autoridades em geral, o povo da cidade, não pertencentes às congadas. Vi que essa ponte entre esses dois universos distintos me faziam sentido. Ao longo do tempo, da minha vida, o convívio com os congadeiros foi se estreitando e consequentemente foi se tornando cada vez mais difícil, como pesquisadora autodidata, separar: o quanto eu me sentia pertencente aos grupos, tanto quanto à  sociedade atibaiense de forma geral. Ou  ainda, separar minha vivência popular da erudita. Minha forma de conduta criava por si só questionamentos, por uma linguagem não verbal, que confundia a cabeça de muita gente. O que contribuía para essa forma de relação com a cultura popular local, era a minha vivência com a dança, partindo do movimento para a pesquisa do movimento. Aquilo que se aprende pela prática e que se carrega por toda vida. Conhecer a dor de um parto, Maria conhece. José, João e Benedito só podem supor.

Élsie Monteiro da Costa - 14 de setembro de 2013.

domingo, 8 de setembro de 2013

Continuando – 1

Tiros de Bacamarte


Bacamarteiro Victor Hugo - Pageú


Mais um "furo na lona". Chega a notícia de que eu havia ganho o prêmio do concurso de monografias. Como eu era bem nova, não tinha ainda a dimensão da importância daquele prêmio. A notícia chegou por telefone na casa de minha mãe, e ela foi logo me avisar. Meu saudoso irmão  Ricardo (o Deca) entrou anunciando Élsie! Élsie! Arrume a mala que você vai ter que viajar! Segundo nota divulgada em Jornal,  A monografia "Ternos do Congo-Atibaia", de Élsie da Costa Girardelli, foi a vencedora do prêmio Sílvio Romero deste ano, concedido pela Funarte, cujo objetivo é incentivar o estudo e a pesquisa da arte popular brasileira em suas mais diversas manifestações. Residente em Atibaia, São Paulo, Elsie da Costa Giradelli receberá seu prêmio na terça feira, em João Pessoa, durante a Sexta Festa do Folclore Brasileiro, promovida pela Funarte através da Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro. Criado em 1959, o concurso Sílvio Romero teve, este ano, 55 trabalhos concorrentes, sendo que apenas 25 atenderam aos requisitos mínimos do regulamento e foram classificados. Além da monografia vencedora, foram escolhidos mais dois trabalhos que receberam menção honrosa: "Rezadores, Pajés e Puçangas", do Paraense Artur Napoleão Figueiredo e "Dinheiro, veículo de comunicação popular", da mineira Alice Inês Silva Merheb. No Juri do concurso estavam Théo Brandão (Theotônio Vilela Brandão, de Alagoas, membro fundador da Comissão Nacional de Folclore) , Guilherme Santos Neves (do Espírito Santo) e Vicente Salles (do Pará – escritor, pesquisador, historiador, folclorista e musicólogo). Com quase cinco meses de gestação segui a caminho de João Pessoa. Foi uma comitiva no avião.

Entrega Oficial do Prêmio Silvio Romero,  por Braulio do Nascimento.


Dentre os pesquisadores presentes no VI Festa do Folclore Brasileiro, Marlise Meyer, Raul Córdula Filho, Maria do Rosário, Altimar Pimentel, Raul Lody, M.Lurdes Borges Ribeiro,  Bráulio do Nascimento, entre outros. Um ônibus levou-nos, toda a comitiva,  à cerimônia de abertura. Chegando ao local, ao descer do ônibus, fomos recebidos por uma banda marcial. Um locutor conduzia a cerimônia. Após a apresentação da banda, os Congos de saiote, de Pombal. O povo aglomerava-se em torno. Por fim, o locutor pedia ao público que se afastasse para abrir espaço aos Bacamarteiros. O bacamartismo é um amplo movimento cultural de tradição presente em vários estados do nordeste, durante festejos juninos.Um leve empurra empurra, mas nada de se abrir o espaço. O chefe então foi entrando e abrindo pequena área. Assim que viu que era suficiente, deu o primeiro tiro. Buuuuuum!!! Noooossaaaa!!! Foi só gente dando no pé, e rapidinho a área se abriu. Um, dois, três, tiros...tamanho o estrondo e a chama da “porva”, foi um verdadeiro espalha roda. A apresentação foi deslocada e terminou à beira da lagoa. Os tiros de bacamarte, são tiros pela paz. Para mim representou grande alegria. A chance tão sonhada, na adolescência, de conhecer as festas, as tradições, a cultura do meu país.

Momento de apresentação do Cavalo Marinho. Marlise Meyer à esquerda e Élsie à direita



















Élsie Monteiro da Costa – 5 de setembro de 2013.

Como tudo começou – 4

No Último Dia e Na Última Hora


Fins de 1977 ou início de 1978. Em busca de bibliografia sobre folclore, congadas e culturas populares, fui à Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, quando a sede ainda era no Largo São Francisco. Consegui adquirir vários livros. Aguardando num dos corredores à procura do setor de folclore, vejo um recorte de jornal pregado na parede. Tratava-se de um edital de monografias sobre folclore, o Concurso Silvio Romero. Comecei a ler e fui ficando entusiasmada. Dava certinho para o que estava fazendo relativo à pesquisa das congadas. Senti o mesmo impulso de quando criança, ao ver o anúncio do concurso de bonecas. Pedi uma cópia do artigo e voltei para Atibaia, feliz com os novos livros e a nova perspectiva. Mostrei a cópia do recorte para minha irmã mais velha, que logo me entusiasmou. Meu outro irmão, achou que seria impossível uma menina do interior conseguir ganhar um concurso nacional, e que sempre tinham cartas marcadas. Fui em frente. Minha irmã mais velha foi quem me ajudou. Ia para o apartamento dela após as aulas de dança, que fazia no Balé Stagium, e noite a dentro, ia narrando a pesquisa em conversas com ela. Ela me ajudou na estrutura do livro e na narrativa inicial. Voltava para Atibaia, continuava a escrever, e novamente, levava para ela ajudar na revisão. Assim foi. Ela estava grávida da segunda filha e eu da primeira. Só lembrando: foi tudo escrito à mão. As fotos, feitas pelo Walter Girardelli, revelamos na chácara do Armando Canuto, um fotógrafo que acabara de conhecer. Com o prazo vencendo, igualmente fazíamos as fotos noite a dentro. Depois foi datilografado e feitas as cópias para serem encadernadas. Fizemos os croquis também de forma manual. Naquele tempo NÃO HAVIAM COMPUTADORES NEM SISTEMAS DIGITAIS. Terminada a tarefa, o prazo justo e sem mais tempo para correio. Meu pai ia viajar ao Rio para visitar minha avó e achou por bem antecipar a viagem para levarmos o trabalho para inscrever diretamente na FUNARTE. O quê um pai não faz pelo esforço de um filho? Fomos no último dia de inscrição. Saímos durante a madrugara pois papai resolveu conhecer a estrada Rio-Santos, nova naquele tempo. A viagem foi bem mais extensa do que prevíamos, de forma que chegamos ao Rio em cima da hora de fechar a FUNARTE. Tinham umas pilhas de envelopes. A inscrição era feita por pseudônimo, de forma que houvesse isenção na avaliação dos trabalhos enviados. Prometi a São Benedito que se ganhasse o concurso, para publicar o livro, ou Menção Honrosa, ajudaria sempre as congadas de Atibaia. Fiz então a inscrição sob pseudônimo Benedita do Rosário.

Foto de Walter Girardelli, de 1975 - Acervo Garatuja 

















Élsie  da Costa – 3 de setembro de 2013.

Como Tudo Começou – 3

As Figas
Élsie da Costa – 2 de setembro de 2013.


Era mês de agosto de 1973. Mês que se comemora o dia do Folclore. Alvoroço na sala de aula. As equipes se formaram para sorteio e distribuição dos temas do trabalho de pesquisa e apresentação oral sobre  manifestações do folclore brasileiro. Equipe 1, Capoeira, Equipe 2 Caiapó, etc. etc. etc. Eramos três na equipe: Marisa Bueno, Elza Campos e Élsie. Três amigas dessas que viviam grudadas. Tema sorteado: Congada. Distribuindo as tarefas, uma foi para a biblioteca, outra para o museu e eu?Adivinha onde eu fui? Para a rua... Pensei logo: - Porque não perguntamos tudo para aqueles que fazem a Congada? Procurei a casa onde morava a família do mestre violeiro. Período de início das fitas k7. O gravador foi emprestado do meu namorado. Comprei uma fita e lá fui eu... mamãe me levou de kombi até o Bairro da Ponte. Uma pequena vila com moradias muito humildes. Foi lá que conheci seo Amaro Moreto, mais conhecido como seo Mario, e sua esposa Dona Lurdes. Uma semelhança: a família grande. A filharada brincava pelo quintal da vila. Foi minha primeira entrevista aprendendo sobre a Congada. Eles foram muito gentis. Emprestaram fardamento, espada, instrumento, tudo para eu levar para a escola no dia da exposição oral. Cada grupo foi expondo o trabalho, e o professor ia dando a nota ao final de cada explanação. O nosso foi um dos últimos. Uma fez a fala inicial, a outra foi mostrando os pertences cedidos pelo mestre e eu mostrei a entrevista gravada. O professor, lembro-me bem, disse então, que acabara de  aprender algo: dar a nota somente após todas as apresentações. Isso por que um dos trabalhos já havia ganho nota dez. Então ele virou e disse para nós: a nota é dez, e não pode ser outra. Na aula seguinte, trouxe uma lembrança para cada uma de nós. Eram três figas, feitas artesanalmente. Ele deu uma aula sobre aquele símbolo. Guardei aquela figa por longos anos. Um dia ela desapareceu. As outras duas amigas seguiram outros rumos na vida. Três anos depois, eu telefonei para o professor a fim de saber se ele ainda tinha o trabalho escrito, porque eu gostaria de ter uma cópia. Ele então disse que não tinha mais o trabalho. Foi então que resolvi faze-lo todo de novo. Esse professor, deu grande contribuição na minha vida. Ele se chama Hermes Péricles Felippe. Durante as férias de dezembro e janeiro de 1975/76, me ocupei de ir ao Museu para pesquisar. A Dona Ivone foi muito atenciosa. Eu então, copiava a mão os manuscritos que ela me cedera, levava para casa e datilografava numa antiga máquina de escrever, também do meu namorado. Fiz isso várias semanas. Fui também à Biblioteca Municipal. Juntei um dinheiro e comprei um gravador Philips portátil, que por sinal era ótimo. Fui ao bairro do Portão, para gravar um ensaio da Congada Vermelha. Gravei uma música e o gravador encrencou. Daí por diante toda a pesquisa foi feita com um gravador semelhante, emprestado da Maria Pilegi Contesini. Grande amiga. Levei uns três anos documentando as congadas, fazendo um comparativo, de épocas, com os registros que buscara no Museu. Prancheta em punho e gravador a tira colo, eu anotava, gravava e o Walter Girardelli, meu namorado fotografava, em slides, com uma câmera Laica. Uma jovem de dezessete anos com tal ocupação não era um fato muito comum. E também quase ninguém se interessava por esse tema. Despertava certa curiosidade em algumas pessoas. Fui diversas vezes repreendida por meu pai. O que a Élsie está fazendo no meio dos congos? Bom lembrar, que naquela época não haviam mulheres dançando nas congadas. Para registrar a alvorada, saia escondida, de madrugada. Lembro-me do seo Quito dizendo: até hoje nunca vi ninguém na rua essa hora, para ver alvorada. O café da manhã das congadas não era na escola EMEI Florêncio P. Camargo. E eu, convidada pelo seo Quito, ia  tomar um café na Casa da Banda. Ressalto que, tanto os músicos da banda com os congadeiros, sempre foram muito respeitosos comigo. Com a publicação do livro Ternos de Congos e o registro da Ladainha no Santo Cruzeiro, chamou-se atenção para este momento dos festejos. Não havia relatos anteriores deste momento. Hoje, passados nada menos que quarenta anos, já se tornou corriqueira a participação das pessoas na reza da alvorada. E o interesse pelo tema foi ganhando mais adeptos.


Foto de Walter Girardelli Jr., de 1975, digitalizada de slide. 
Na época era caríssimo fotografar com slides.  
 Bem no cantinho à direita (próximo ao poste), 
eu aos 18 anos, fazendo minhas anotações. A pesquisa
 resultou no Prêmio Silvio Romero de 1978.  Era a procissão
das Bandeiras de São Benedito e Nossa Senhora do Rosário
saindo do bairro CTB. Nessa época a festa pertencia 
efetivamente ao povo. Até as bandeiras eram
pintadas por Dona Sebastiana.


Eu de novo, no canto à direita.
Segurando o estandarte, o popular Pinduia e na viola o seo Gentil,
o "bijuzeiro", que tocava viola sem uma das mãos.
Para ampliar clique na imagem.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Como tudo começou – 2

Um Furo na Lona

Domingo. Tarde quente no interior paulista. O asfalto fumegava às quatorze horas. De longe, olhava a lona, quadras adiante. Vontade de ir ao circo. A placa escrita com alvaiade anunciava. Próximo domingo: concurso de bonecas. Ao voltar da escola, olhei minha bonequinha encardida da terra do quintal. Suas sensuais pernas de borracha calçavam um miúdo sapato branco de plástico, com um lacinho em cima. Sua única roupa era uma saia evasè azul-claro e uma blusa xadrez sem manga, em tons de azul e rosa. Pensei no concurso e... olhando para ela pensei: - nem tentar. Comecei a brincar. Ela ia se arrumar para um baile. O lencinho verde, de seda  muito fina, serviu para criar um manto preso ao cabelo. Resolvi dar banho, e consegui aos poucos alvejar a sujeira. Lavei a miúda roupa e enquanto secava ela ficou despida e coberta em sua cama de caixa de sapato. Lição de casa, enxugar louça, jantar, dormir, acordar e ir a escola, voltar, vestir a boneca, foi o que se sucedeu. Fiz um pequeno colar de vidrilhos e pulseirinha de miçangas. Penteei seus cabelos sintéticos, amarrei o lenço de seda cobrindo até os pés. Achei pouco e bordei a blusa, também com vidrilhos. Depois a saia também pediu enfeites. Terça, quarta, quinta, sexta, sábado... e a boneca estava pronta. No domingo, o almoço à mesa e quatorze pessoas em volta. Pedi para ir ao circo. Resposta: - Não. Ninguém queria ir. Só eu. Sozinha? Nem pensar em insistir. O remédio foi cair em prantos. Quem não chora não mama. Minha irmã resolveu ir também e mamãe acabou deixando. Ela era arruaceira, juntou mais umas colegas e fomos. O circo? Furreco!!! Cadeiras sobre serragem. Sentamos: eu, a boneca e a turma da Jane. Olhei para os lados, umas trinta crianças com bonecas. Acho que não vou! Claro que vai! Na hora do concurso o palhaço berrava: - É essa?! E o público respondia: - Éé!... Ou: - Nããão! Com a berraria do palhaço, iam desclassificando-se as bonecas. A minha foi ficando, graças à torcida da Jane. No final ficaram duas: a minha minúscula e outra gigantesca, ricamente ornamentada com saias de feltro e apliques de flores. A dona quase que sumia atrás da bonecona. E na hora dos berros do palhaço: - É essa ??? – Ergui o braço levantando a bonequinha para o alto. Em lona de circo velha entra chuva, mas também entra sol. O facho de luz que varou a lona incidiu sobre minha princesa, reluzindo os vidrilhos. E o público: Ééééé’!... Ganhei dois cruzeiros!!! Voltei feliz. Fim de domingo. Todas as outras vitórias que tive ao longo da vida foram exatamente como esta primeira.

Élsie da Costa – baseada em história verídica ocorrida em Tanabi – SP, em 1967.